sábado, 21 de fevereiro de 2026

Diário de Um Cão !


O meu  nome é  Farrusco - não entendo muito bem porquê - mas   suponho que  é   por ser muito negrinho, como o carvão.

De qualquer modo, recordo que foi assim que comecei a dar-me por esse nome, pouco tempo depois de nascer e de me retirarem da minha mãe. 

Ambos de lágrimas nos olhos eu, porque não queria sair de junto dela, ela porque era simplesmente a minha mãe e eu o seu filho.

Com alguma relutância mas, porque os humanos é que mandam neste Mundo Cão, lá me levaram.

Lembro-me que chorei várias noites, até pensar que já nada havia a fazer senão habituar-me à ideia e tentar adaptar-me à minha nova vida.

Recordo-me de começar a ouvir chamar Farrusco e pensar para comigo, devo ser eu e olhar um pouco desconfiado para quem me chamava e ao mesmo tempo me pegava ao colo.

No entanto para minha surpresa, era um rosto enrugado pelo tempo mas, bonito e simpático que me olhava com tanta ternura, que não me contive a agradecer-lhe, abanando o meu rabito, o que a fez sorrir e dizer:

"olha João estás a ver como ele gosta de mim", ao que o tal João respondeu feliz também, eu bem te disse amor, o que ele tinha era saudades da mãe, mas em se habituando a nós, vais ver que não nos larga.

O tempo foi passando e eu crescia feliz mimado pelos donos que tanto adorava. 

Uma certa noite, acordei com muita agitação naquela casa que por norma era bem pacata,  levantei-me  e fui até onde estavam os meus donos e, sem entender muito bem o que se passava, vi que o  meu dono chorava debruçado sobre o peito da minha dona que dormia. 

Para chamar a atenção, ladrei e pus as minhas patas dianteiras no joelho do meu dono, ele olhando com lágrimas nos olhos, disse-me apenas: meu amiguinho, morreu a nossa princesa.

 Lembro de lhe lamber as lágrimas, pensando assim que ele pararia de chorar.

Neste entretanto, entraram umas pessoas desconhecidas no quarto e eu talvez por não querer "acordar" a minha dona, deitei-me muito quieto aos pés da sua cama, observando tudo muito atentamente, como querendo descobrir o que se estava a passar.

Depois tudo aconteceu muito rápido, "trataram" da minha dona, meteram-na dentro de uma grande caixa e deixaram-me sozinho a pensar para onde a levariam.

Passaram dois dias sem ver os meus donos, ate que pelo final da tarde do segundo dia, apareceu o meu dono sozinho.

Corri, saltei, abanei o rabito, ate ladrei, mas daqueles olhos tristes só caíam lágrimas, impotente deitei-me a seus pés e ali ficámos os dois não sei por quanto tempo. Naquela casa já só se escutava o silêncio, não me faltava comida nem o carinho do meu dono, mas a tristeza dele era tão grande que me contagiava.

A dada altura, sou surpreendido por alguém que entrou lá em casa e passou a tarde a falar com o meu dono. De novo o meu dono voltou a chorar e perguntou a quem com ele falava, e o Farrusco?

Arrebitei  as orelhas a conversa era sobre mim, e ouvi a resposta seca e a soar a falsa, "não se preocupe Ti João, que eu trato do Farrusco, mas agora temos de ir, porque esperam por si na Casa de Repouso".

O meu dono veio ao pé de mim e disse-me com lágrimas nos olhos, quando eu já chorava também (sim porque os animais também sentem), meu amigo, não te posso levar comigo, mas vais ficar bem, havemos de voltar a ver-nos, e coçando-me a cabeça, saiu cabisbaixo, sem olhar para trás.

 Senti a porta fechar e ali fiquei à espera do que estaria para vir.

 Passaram 5 dias, até que a tal pessoa que levou o meu dono, abriu a porta deu-me um pontapé no rabo e gritou:

 - Vá palerma faz-te à vida - .

 Nesse momento entendi tudo, entendi que o ser humano é cruel e  desumano.

Hoje, já velho e cansado, ando pelas ruas, escorraçado por uns e outros, acarinhado pelos mais piedosos, recorrendo aos caixotes mas, sempre a recordar com saudade os meus adorados donos que tanto  me  deram sem pedir nada em troca.

Sofro muito mas, penso naqueles que nunca tiveram a felicidade de conhecer ninguém bondoso e humano como eu tive.

Lamento que o ser humano, não nos dê valor, porque nós somos leais, e muitas vezes damos a vida para salvar os humanos, ajudamos em buscas, em incêndios, em catástrofes, e tudo fazemos de boa vontade, por respeito.

Em troca só pedíamos que fossemos respeitados também, porque os animais também têm sentimentos.

Este é o meu diário. 

Estou a sentir-me muito cansado e entorpecido, pelo que vivi e já vi, está a chegar a minha hora e, o meu último pensamento, vai para o dia em que a minha dona me chamou Farrusco e feliz disse, que eu gostava dela… obrigado !!!!

Nota: Narrativa real - em modo "fábula"💔😥

Autoria: - Mia Ressu     📖


Imagem: AI - de criação própria


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