Cada ruga é uma história e eu não quero apagar nenhuma.
Vivemos num tempo estranho e quase de uma exigência social.
Um tempo em que a idade deixou de ser vista como conquista e passou a ser tratada como ameaça; Que rugas são quase um insulto, e a flacidez é tratada como "falha"corporal, na sociedade em que se vive.
E então vemos pessoas, muitas, talvez até demasiadas, a correrem para o bisturi como quem foge de um incêndio.
Rostos esticados até perderem expressão.
Lábios inflados que já não combinam com a idade do resto do corpo.
Pálpebras levantadas, até parecerem sempre surpreendidas.
Filtros que apagam tudo o que faz parte da vida real.
E o mais triste ?
É que quanto mais tentam parecer jovens, mais se afastam da beleza verdadeira. Porque a juventude não está na pele.
Está no olhar.
Na alma.
Na forma como se vive.
Brigitte Bardot, uma das mulheres mais bonitas e sensuais, do cinema, é um exemplo a seguir. Entendeu isso há muito tempo atrás.
Envelheceu com o rosto que a vida lhe deu: muito bonito, marcado de rugas, e verdadeiro.
Nunca se escondeu atrás de plásticas. Nunca teve medo de ser e mostrar quem era.
E é aqui que entra a minha convicção, simples mas profunda:
A melhor prova de sabedoria que um ser humano pode dar é aceitar a idade, as rugas, a flacidez.
Envelhecer com dignidade é um saber que não está ao alcance de todos.
Há quem confunda rugas com decadência.
Eu vejo-as como capítulos.
Cada linha no rosto é uma história.
Cada marca é uma vitória.
Cada ruga é uma prova de que se viveu e viver é o maior privilégio que existe.
꧁༺ seguimento temático ༻꧂
E ainda há outra coisa que me inquieta: a forma como tratamos os nossos mais velhos. Inventaram palavras frias para disfarçar o desconforto:
- Sénior
- Idoso
- Terceira idade
- Idade vintage
Mas eu continuo a preferir dizer velhinho.
Porque é aí que mora a ternura.
É aí que vive o carinho.
É aí que se sente o respeito.
Dizer "estive a falar com um velhinho" aquece o coração. Dizer "estive a falar com um sénior" parece relatório de enfermagem.
E se tiver a sorte e um dia lá chegar, quero muito que me tratem por - velhinha.-
Com amor. Com cuidado. Com verdade.
Porque envelhecer não é perder valor. É ganhar profundidade.
E quem não entende isto…não precisa de plásticas.
Precisa de coragem.
Não escrevi este texto para criticar ninguém. Nem teria sequer tal ousadia, escrevi porque tenho o "pessimo" hábito de escrever a "vivência" no seu global, como a sinto.
Escrevi porque acredito muito, que a dignidade não se estica com plásticas, nem se esconde atrás de filtros.
Escrevi porque as rugas contam histórias. E porque envelhecer é um privilégio e uma benção, e isso nunca poderá ser motivo de vergonha.
Deixo-vos esta crónica com o coração aberto. Se tocar alguém que que a possa ler, como me tocou a mim ao escrever, já valeu a pena.
Autoria: - Mia Ressu 📖
Imagem: AI - de criação própria
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